CIÊNCIA ANIMAL!

AS CINCO LIBERDADES: O QUE TEMOS A VER COM ISSO?

por Por Cassia Rabelo Cardoso dos Santos, Adestradora, Consultora Comportamental e Coordenadora do Grupo de Estudos Científicos
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Na estreia deste blog, nada melhor do que falar sobre um dos pilares para todos os que trabalham com comportamento: garantir o bem-estar dos animais, sejam eles domésticos, de criação ou silvestres que vivam em cativeiro.

Origem e quais são as cinco liberdades

As chamadas cinco liberdades consistem em uma das formas que os cientistas usam para avaliar o bem-estar animal. Elas foram desenvolvidas em resposta a um relatório de 1.965, do Governo do Reino Unido, sobre a criação intensiva de gado, elaborado pelo Prof. Roger Brambell.

São elas:

Liberdade de sentir fome ou sede: promovendo acesso a água fresca e uma dieta que garanta a saúde e o vigor físico do animal;
Liberdade de desconforto: proporcionando um ambiente com abrigo adequado e incluindo uma área de descanso confortável;
Liberdade de dor, ferimento ou doença: por meio de prevenção ou diagnóstico rápido e tratamento adequado;
Liberdade de sentir medo ou ser submetido a estresse: assegurando condições adequadas de ambiente e manejo que evitem o sofrimento mental;
Liberdade para expressar seus comportamentos naturais: de acordo com as características de cada espécie.

É importante ressaltar que as quatro primeiras liberdades têm cunho “negativo”, pois sugerem que, ao animal, deve estar garantido o direito de ser livre de algo que lhe causaria danos. Já a quinta liberdade tem cunho “positivo”: liberdade para expressar os comportamentos espécie-específicos.

Utilidade e aplicação no dia a dia

O conceito das cinco liberdades ainda deve ser considerado como um importante medidor para todos os que trabalham com animais, inclusive os de estimação, mas a avaliação de cada uma delas, em um caso concreto, deve ser sempre pautada no bom senso, pois muitas vezes podemos enfrentar algumas limitações práticas.

No dia a dia, os profissionais especialistas em comportamento animal se deparam (muitas vezes sem perceber) com o seguinte dilema: resolver um problema comportamental ou manter o bem-estar do animal, por exemplo, se orientamos o tutor a não deixar ração à disposição para o pet, poderíamos estar violando a liberdade de sentir fome? Não, claro que não! Fome é diferente de apetite e deixar alimento à disposição pode levar o animal à obesidade e, por consequência, à diabetes, infringindo outra das cinco liberdades: estar livre de doenças. Por isso, essa avaliação deve ser feita com critério, analisando todas as liberdades previstas no conceito.

Um exemplo desse raciocínio seria a análise de um gato obeso que teve sua liberdade de sentir fome sempre muito “preservada”, mas isso acabou comprometendo sua saúde e sua liberdade para expressar seus comportamentos naturais, pois hoje ele apresenta dificuldades para saltar, escalar e brincar. Além disso, esse gato deve se sentir incomodado com o score corporal avantajado, o que viola também sua liberdade de estar livre de desconforto.   

Dilema: comportamentos naturais X problemas comportamentais

Qual adestrador não sabe da importância de permitir que os animais expressem seus comportamentos naturais, visando seu bem-estar? Não é exatamente por isso que orientamos os clientes a passear regularmente com seus cães e a permitir que os gatos tenham acesso a prateleiras e arranhadores? Sim, claro que sim! Nesse sentido, pode até parecer que todos os comportamentalistas sabem avaliar e avaliam muito bem essa liberdade, as o que devemos fazer quando somos chamados para ajudar nas seguintes situações?

“Não quero que meu cão cave meu jardim.”;
“Meu cão não pode comer cocô (Que nojo!).”;
“Não quero mais que meu cão cheire todos os arbustos nem lamba o xixi dos outros.”;
“Meu gato tem que parar de caçar baratas!”;
“Meu cachorro tem que parar de caçar o porquinho-da-índia.”;
“Meu Golden derruba o pote de água, quero que ele use um bebedouro igual aos de chinchila.”.

Ao "resolver esses problemas", não estaríamos violando a liberdade para expressar comportamentos naturais? Todos os exemplos acima consistem exatamente em comportamentos instintivos e específicos de cães e gatos, que ainda se mantêm mesmo após milhares de anos de domesticação desses animais.

Em contrapartida, permitir que os animais de estimação expressem todos e quaisquer comportamentos inatos pode levá-los ao tão famoso “mimo” excessivo, que tanto compromete a convivência das famílias com seus pets. Tutores muito permissivos agem contra a própria natureza dos animais, que, em vida livre, não teriam tudo a sua disposição e precisariam respeitar algumas regras para evitar situações de risco e garantir sua sobrevivência. Nesse sentido, há comportamentos que podem ser muito perigosos quando estimulados, como o instinto predatório aguçado que leva o animal a “caçar” crianças que correm pela casa, por exemplo.

O que fazer então?

A aplicação das cinco liberdades é um assunto complexo, e o estudo sobre a percepção dos animais em relação ao mundo (se eles sofrem, se são felizes etc.) é fundamental para trabalharmos de forma equilibrada e sensata. Não podemos considerar a análise de cada item que compõe as cinco liberdades sem avaliar antes o contexto da situação prática.

Além disso, quanto à expressão dos comportamentos naturais de cada espécie, devemos sempre considerar as alternativas viáveis e adequadas para cada realidade, direcionando determinados comportamentos inatos para alguma atividade alternativa, sem comprometer a saúde do animal, muito menos sua convivência com a família.

Revisado por Juliana Sant’Ana, adestradora e membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

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