CIÊNCIA ANIMAL!

Você sabe como o clicker funciona?

por Por Claudia Terzian, membro do Grupo de Estudos Científicos
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O treino com clicker é uma técnica que supostamente facilitaria o aprendizado dos animais, porém, a despeito de sua consagração mundial, os estudos sobre o assunto são limitados, e os resultados surpreendentemente inconclusivos, já que poucas pesquisas que prometem testar a eficácia do clicker comparam os resultados com o desempenho de um grupo controle que seria treinado apenas com o reforço primário, ou seja, o alimento.

Dos cinco estudos que avaliam o uso do clicker em relação a um grupo controle, apenas um identificou que os animais do grupo "clicker + alimento" aprenderam mais rápido, mas por que será que isso acontece? Para entender os motivos, precisamos saber como o clicker funciona. Você saberia explicar?

Hipótese de reforço

Pensando na ideia de reforço, a ferramenta funcionaria como reforçador secundário (lembram-se de Pavlov?), como se o animal recebesse o petisco ao ouvir o som do clicker, aumentando assim a probabilidade da recorrência de um comportamento. Para avaliar se o clicker funciona como um reforçador secundário, observa-se o desempenho do animal ao executar uma tarefa, sua capacidade de condicionar novos comportamentos e a resistência de um comportamento à extinção, tudo isso sem o reforço primário (mais comumente, o alimento). No entanto, os estudos existentes sugerem que, embora o clicker tenha adquirido propriedades do reforço primário, seu uso prolongado sem o alimento não seria eficaz.

Hipótese de Marcador

O clicker também pode ser um marcador de eventos que facilita a captura do comportamento do animal, no momento em que o estímulo sonoro é ouvido. Essa função de marcador é distinta do efeito de reforço descrito acima, porque nesse caso não precisamos associar previamente o clicker a um reforço primário. Você sabia disso? Os estudos sugerem que a captura de um comportamento é facilitada com o uso do clicker, mesmo sem antes carregá-lo!

Hipótese de Ponte

A ideia de "ponte" seria fazer uma ligação entre a execução do comportamento e a entrega da recompensa, recebida com atraso. Essa hipótese foi proposta num experimento em que pombos aprenderam a bicar um alvo para ganhar alimento, mas a recompensa era oferecida vários segundos depois. Notou-se que os pombos aprenderam mais rapidamente quando a lacuna entre o comportamento e a recompensa era preenchida com o clicker.

Uma "velha" novidade

Agora temos mais uma surpresa para os leitores que nos acompanharam até aqui... Quem disse mesmo que o som do clicker tem que ser curto e seco? Encontramos outro estudo, publicado em 1982 (pasmem!), que repetiu o experimento com os pombos e utilizou dois sinais condicionados: um curto e outro longo. O que eles descobriram? Que o sinal longo foi mais eficaz como ponte! É claro que se trata de um único estudo numa condição específica e sabemos que o ideal seria haver vários estudos replicando a mesma experiência, mas não há!

Então...

O que é mais eficaz como ponte entre, por exemplo, o xixi no local correto e o petisco: o som seco de um clicker ou um longo “muito bem” do tutor? Uma das hipóteses levantadas é a de que um sinal mais longo desencadeia uma resposta cerebral de prazer maior e, por esse motivo, seja mais eficaz, porém essa hipótese ainda não foi  testada. Portanto, talvez um sinal curto e seco seja mais eficaz quando se busca o efeito de marcador, enquanto que o longo teria um melhor efeito de ponte. Quem sabe? Também nos faltam estudos para comprovar essa ideia.

Destrinchando um desses estudos

Vamos falar sobre um estudo que compara o desempenho de animais treinados com clicker + alimento e o desempenho daqueles que foram recompensados apenas com o alimento. Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Whitewater, nos Estados Unidos, recrutaram 35 basenjis, de diversas idades e que viviam com seus tutores e nunca haviam sido expostos ao clicker. Esses cães foram treinados a tocar com o nariz um cone de trânsito laranja. Para avaliá-los, os cientistas separaram os animais em dois grupos: o primeiro foi treinado com uso do clicker e a recompensa alimentar e o segundo (grupo controle) recebeu apenas o alimento. No grupo do clicker, foi realizado o condicionamento do sinal sonoro com a recompensa. Em seguida, a recompensa alimentar foi suspensa nos dois grupos, sendo que, no primeiro grupo, o uso do clicker foi mantido.

Resultados

Não houve diferença significativa no número de treinos, nem no tempo necessário para o aprendizado da tarefa entre os grupos. No entanto, no grupo do clicker, foram necessárias mais repetições e mais tempo, para atingir os critérios de extinção do comportamento.

O que isso quer dizer?

Esses resultados sugerem que o clicker não diminui o tempo de aprendizado de uma tarefa operante simples em cães. Os pesquisadores argumentam ainda que pode ser necessária uma experiência prévia do cão no aprendizado com clicker para que a ferramenta se torne um facilitador do processo. Talvez seja necessário ensinar alguns comportamentos diferentes com a ferramenta, para depois comparar o aprendizado de um novo comportamento com o grupo controle. Além disso, os cientistas notaram que os cães observavam os movimentos da mão durante a entrega do alimento. Tais movimentos podem ter funcionado como marcadores, o que facilitaria o aprendizado do grupo controle.

Na fase de extinção, levantou-se a hipótese de que os cães estavam usando o som do clicker para prever a entrega do alimento, por isso, manter o uso do clicker durante a extinção pode ter atrasado a percepção dos cães de que o toque de nariz não seria mais recompensado com alimento. Além disso, se os cães do grupo controle estavam associando os movimentos da mão com a entrega de alimentos, a ausência de tais movimentos durante a extinção pode ter ajudado os cães a aprenderem que o toque de nariz não seria mais reforçado.

Apesar de ter aumentado a resistência à extinção de um comportamento, o clicker não pode ser utilizado por um tempo longo sem o reforço primário, mas ele pode ser útil na manutenção de comportamentos aprendidos, quando o reforço primário não está disponível ou sua entrega é impraticável.

E agora?

Nem tudo em que acreditamos ou que utilizamos foi completamente estudado, compreendido ou esclarecido.  Muito temos a aprender! O importante é ter em mente os mecanismos que levam o clicker a facilitar um treino. Além disso, precisamos lembrar que outros fatores, como diferentes ambientes, estímulos, presença do dono, score corporal do cão etc., podem alterar nossos resultados no dia a dia.

Por isso, também é nosso objetivo chamar a atenção sobre conceitos sem fundamentos científicos, como a hipótese de  qual seria o som mais perfeito para o clicker ou a ideia de que o clicker de boca ou o uso de palavras como marcadores não seria válida. Embora não haja estudos sobre isso, parece-nos ainda mais improvável definir este ou aquele som como o “clicker mais perfeito”, mesmo porque, como já nos referimos acima, o sinal sonoro mais eficaz pode variar dependendo do nosso objetivo em cada treino.

Preparação e revisão de texto: Juliana Sant’Ana, adestradora e membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

Referências:

  1. FENG, Lynna C.; HOWELL, Tiffani J.; BENNETT, Pauleen C. How clicker training works: Comparing Reinforcing, Marking, and Bridging Hypotheses. Applied Animal Behaviour Science, v. 181, p. 34-40, 2016. Disponível em <http://www.appliedanimalbehaviour.com>. Acesso em 10 out. 2016.

  2. RESCORLA, Robert A.; HOLLAND, Peter C. Behavioral Studies of Associative Learning in Animals. Annual Review of Psychology, v. 33, p. 265-308, 1982. Disponível em <http://www.annualreviews.org>. Acesso em 10 out. 2016.

  3. SMITH, Shawn M.; DAVIS, Ellen S. Clicker increases resistance to extinction but does not decrease training time of a simple operant task in domestic dogs (Canis familiaris). Applied Animal Behaviour Science, v. 110, n. 3, p. 318-329, 2008. Disponível em <http://www.appliedanimalbehaviour.com>. Acesso em 10 out. 2016.

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