CIÊNCIA ANIMAL!

Obesidade Canina

por Tatiana Moreno, Juliana SantAna, Patricia Tsapatsis, Claudia Terzian, Samantha Melo - Grupo de Estudos Cient
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A obesidade é uma condição cada vez mais comum em cães no Brasil e no mundo, o que tem chamado a atenção de diversos especialistas da área, entre eles veterinários, adestradores e pesquisadores. O problema já passou a ser considerado epidemia e merece um olhar cuidadoso, pois se trata de um fator crucial para a qualidade de vida desses pets.

De forma geral, os cachorros são considerados obesos quando estão com seu peso ao menos 15% acima do ideal, o que gera consequências para sua saúde e comportamento. Colesterol alto, hipotireoidismo, dificuldades respiratórias, patologias cardiovasculares e renais, pancreatite, diabetes, queda no sistema imunológico e até mesmo determinados tipos de câncer podem ter como denominador comum a obesidade.

Cães obesos também perdem sua capacidade de caminhar de forma confortável e de se divertir com brincadeiras. Assim como acontece com os humanos, se cansam facilmente e podem começar a apresentar problemas ósseos e musculares, como dores na coluna e ruptura de ligamentos, ou ainda terem agravados quadros de displasia e osteoartrite.  

Além disso, o excesso de peso influencia diretamente na longevidade dos animais. Isso é o que aponta um artigo publicado na revista Veterinary Clinics. Pesquisadores acompanharam um grupo de cães da raça Labrador durante toda a sua vida e comprovaram que, até mesmo aqueles moderadamente acima do peso foram menos propensos a viver além dos 12 anos de idade (lembrando que se trata de uma raça de grande porte e este fator também tem influência na longevidade).

Em contrapartida, os indivíduos que viveram com uma alimentação balanceada e controlada viveram, em média, 2,5 anos a mais que outros e demoraram mais para apresentar problemas de saúde (1,5 anos, em média).

Mas por que os cães estão ficando obesos?

Apesar de ser uma condição muito frequente, o sobrepeso nos animais nem sempre é identificado pelos tutores. A falta de informação e até mesmo um conhecimento distorcido sobre obesidade podem fazer com que as pessoas nem sempre procurem um tratamento específico para seus cães, já que não os consideram acima do peso.

Além disso, estudos indicam que os índices de obesidade aumentam quando o animal pertence a um tutor obeso ou idoso. Isso também pode inibir o médico veterinário ou o adestrador de tocar nesse assunto, com medo de ofender e/ou comprometer a relação com o cliente. Nesse caso, é importante que os dois profissionais sejam parceiros, para que  possam transmitir de forma adequada a mensagem sobre os benefícios à saúde e ao comportamento do animal que o emagrecimento pode trazer.

Muitas vezes, a obesidade canina está relacionada ao consumo de restos de comida, petiscos, lanches e refeições com alto teor calórico. Tudo isso associado à baixa (ou falta de) atividade física e à ideia ainda remanescente de que o "gordinho" é mais saudável e mais feliz, uma vez que a escassez alimentar está diretamente ligada a maus-tratos. Nesse sentido, animais provenientes de resgates, por exemplo, acabam sendo mimados por tutores que querem compensar o passado com um presente cheio de fartura.

Alguns estudos apontam ainda que a idade do cão (e de seus tutores!), o porte (sendo os pequenos e médios mais propensos) e a castração são outros fatores que podem contribuir para o aumento de peso do animal. Algumas raças também são consideradas mais predispostas a problemas de sobrepeso como: Dachshund, Golden Retriever, Sheepdog, Pastor de Shetland, Labrador, Boxer, Cairn Terrier, Basset Hound, Cavalier King Charles Spaniel, Cocker Spaniel, Beagle, Spitz e Poodle.

Por fim, há evidências claras que o sobrepeso está associado à inter-relação entre alimentos, manejo alimentar, exercícios e fatores sociais – questões de total responsabilidade do tutor.

Programa de combate à obesidade

Cientistas apontam que o primeiro passo para se obter resultados em um plano de dieta é o reconhecimento do problema, o que pode ser um desafio quando se trata de tutores que adoram seus pets acima de tudo.

Atualmente o método mais utilizado para avaliação clínica da condição corporal dos cães é uma tabela chamada BCS (body condition score), que avalia a condição corporal por meio de foto ou desenho e uma breve descrição do que deve ser observado, conforme ilustração abaixo. Estudos apontam que tutores de cães, assim como pais de crianças, têm dificuldade de admitir que seus “filhos” estão obesos e, mesmo diante da tabela, subestimam sua condição corporal. Sendo assim, é importante buscar a ajuda de um veterinário nessa questão.

Assim como nós humanos, a boa forma dos cães está diretamente ligada aos hábitos alimentares e nível de atividade física, o que foi comprovado por um estudo realizado em 2004 pela Ohio State University. A pesquisa concluiu que planos de dieta prescritos para perda e manutenção de peso (que envolvem uma ingestão reduzida de calorias mais o manejo alimentar), recomendações para aumentar a frequência de exercícios e verificações mensais de peso são elementos essenciais para o sucesso na missão de emagrecer o pet.

Vamos tornar a vida (e a dieta) mais divertida?

A maioria das pessoas oferece petiscos diariamente a seus animais como meio de fortalecer seu vínculo afetivo com eles. Em vez de exigirmos o fim desse hábito,  já que negar snacks ao cão é uma tarefa bastante difícil, podemos estabelecer um limite diário para essas guloseimas, bem como apresentar opções de petiscos menos calóricos e mais saudáveis como alimentos orgânicos, frutas, legumes, entre outros. É importante ressaltar que, nos cães, assim como nas pessoas, a perda gradual de peso garante com mais eficácia peso corporal reduzido a longo prazo, então equilíbrio é a palavra-chave nesse processo.

O médico veterinário deve ser o principal responsável por ajudar os tutores na identificação da obesidade e na adequação da alimentação (quantidade, qualidade e manejo), considerando inclusive a medida de petiscos diários. Enquanto isso, a mudança na relação entre tutor e cão pode ser auxiliada pelo comportamentalista ou adestrador.

Sendo os cães animais sociais, eles demandam atenção e muitas vezes vem descaradamente cobrá-la. Sendo assim, muitos tutores respondem a essas solicitações de atenção sempre, ou em sua maior parte, com agrados alimentares, pois é prático e satisfatório – principalmente quando o animal em questão foi resgatado, como mencionado anteriormente.

Por isso, os tutores devem ser incentivados a manter atividades com seus animais que não estejam diretamente relacionadas à comida, como passeios e brincadeiras interativas. Como exemplo, temos o cabo-de-guerra, esconde-esconde e até mesmo um simples jogo de buscar a bolinha ou frisbee. Além de aumentarem automaticamente o nível de atividade física do pet, podem ser uma excelente forma de atender às demandas de atenção.

Outra informação importante presente em estudos é a de que, cães que se exercitam diariamente, são menos obesos do que os que se exercitam semanalmente. Ou seja, a atividade física regular, mesmo que menos intensa, traz mais benefícios do que a atividade física esporádica. Existem ainda indícios de que cachorros que se exercitam fora de casa são menos gordos do que aqueles que só se exercitam no quintal. Portanto, recomenda-se que ao menos uma parte das brincadeiras seja feita fora de casa.

A mudança nos hábitos dos donos

De forma empática, precisamos considerar que indivíduos que não têm hábitos saudáveis e não realizam atividades físicas regularmente terão mais dificuldade de aderir à proposta, já que precisarão mudar sua própria rotina. Além disso, tutores obesos muitas vezes não consideram essas questões importantes, talvez por humanizarem seus pets e não enxergarem sua verdadeira natureza.

Nesses casos, é preciso incentivá-los a enxergar a situação de forma otimista: o cão pode ser o motivador para a melhoria da qualidade de vida de seu tutor, não só pela introdução (ou aumento) de exercícios físicos no dia a dia, como também pelos benefícios amplamente comprovados que uma relação mais estreita com o cão traz ao dono, como a redução da pressão arterial e auxílio nos processos depressivos.

Manter um cão no peso ideal dá bastante trabalho, mas é necessário lembrar que a ocupação física e mental são necessidades básicas de um cão e interferem diretamente em sua saúde. E dependendo de como olharmos para isso, podemos enxergar uma grande oportunidade de tornar a vida bem mais divertida para todos.

O que concluímos?

Nossos cães estão ficando obesos. Isso é um fato. Comprovado por estudos, análises clínicas nos consultórios veterinários e pelo crivo dos adestradores comportamentalistas.

Dessa forma, é imprescindível que a ideia de que "cão gordinho é saudável" seja abandonada para que a sociedade possa ter a noção verdadeira de como deve ser a forma física desses animais para que possam ser considerados sadios – e com isso, usufruam de todos os benefícios de estarem dentro do peso adequado, sendo um dos principais a maior longevidade com qualidade de vida!

O combo "dieta menos calórica + maior frequência de exercícios físicos" é quase sempre infalível, por mais óbvio que possa parecer. Assim, a união das recomendações nutricionais do veterinário (incluindo a troca por uma ração mais apropriada), as indicações de treino do adestrador e firmeza e determinação do dono é exatamente o que o animal obeso precisa para voltar ao peso ideal de forma gradual e sem traumas.  

Mudar hábitos nunca é tarefa fácil. Adquirir novos (e mais saudáveis!) é ainda mais difícil, principalmente considerando a correria do dia a dia. Por isso, é muito comum adiarmos essas revoluções quando é a nossa própria saúde que está em jogo. Contudo, faz parte da posse responsável zelar pelo bem-estar e pela qualidade de vida dos pets e combater a obesidade certamente se enquadra nisso tudo. Além disso, no meio de todas essas mudanças na vida do pet, é bem provável que a vida do tutor também mude para melhor.

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