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Ansiedade de separação: entendendo o que há por trás da síndrome

por Por Tatiana Moreno, Adestradora e Membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.
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ANSIEDADE DE SEPARAÇÃO: ENTENDENDO O QUE HÁ POR TRÁS DA SÍNDROME

Os cães são animais que vivem em matilhas e valorizam demais a interação com seus companheiros e as atividades que podem exercer em grupo, por isso ficar sozinho durante muito tempo pode significar que sua sobrevivência está em risco e, a partir daí, desencadear a Síndrome de Ansiedade de Separação (SAS). A síndrome se manifesta por meio de comportamentos excessivos quando o tutor está ausente, sendo seus principais sintomas: destruição, vocalização, necessidades fora do local e agitação exagerada no momento da chegada do tutor. Além disso, podemos observar outros sintomas relacionados à  ansiedade que são gerados por sinais que antecedem a saída do tutor. A seguir, vamos detalhar alguns pontos importantes sobre esse distúrbio comportamental e as possibilidades de tratamento.

A SAS nos dias de hoje

Atualmente, existem mais cães com esse problema do que imaginamos. Estudos realizados em clínicas de comportamento dos EUA, no ano de 2000, mostraram que a SAS constitui um dos problemas mais comuns entre os cães (de 20% a 40%). No Brasil, os estudos sobre o tema ainda são poucos, mas em 2010 uma equipe do Hospital Veterinário da Unicastelo, em Fernandópolis, realizou um levantamento e apontou que 68% dos cães atendidos naquele ano foram diagnosticados com a síndrome (BAMPI, 2014, p. 8-9).

As pesquisas apontam que a SAS não possui apenas uma causa, então alguns profissionais da área separam os cães com predisposição à síndrome em três grupos:

  • Grupo A: cães com hipervinculação primária, que transferem aos tutores uma dependência maternal, geralmente causada pelo desmame precoce ou rejeição da mãe;

  • Grupo B: cães que apresentam uma hipervinculação secundária, resultado de mudanças repentinas na rotina ou estímulos ambientais que provocaram medo, especialmente naqueles momentos em que o tutor não está presente;

  • Grupo C: cães que acabam desenvolvendo a SAS por conta de algum susto ou trauma (por exemplo, uma tempestade ou fogos de artifício), enquanto o tutor não está presente, criando um medo condicionado ao isolamento.

Considerando esses fatores e a rotina cada vez mais acelerada das pessoas nos dias de hoje, fica mais fácil compreender os números elevados de diagnósticos dessa síndrome e é possível ilustrar algumas situações que podem acabar servindo de gatilho para seu desenvolvimento. Um cão que fica em um hotelzinho, enquanto sua família vai viajar, por exemplo, pode se sentir mais solitário quando voltar para casa, já que estará sem a companhia dos outros cães e das pessoas que passaram esse período com ele. Da mesma maneira, quando os tutores ficam um período em casa por conta de uma licença médica, por exemplo, o cão também pode estranhar a solidão quando a rotina for retomada.

Identificando a SAS

Por se tratar de um comportamento que ocorre enquanto o cão está sozinho, muitas vezes é extremamente difícil realizar o diagnóstico. Para os tutores, vale estar atento a alguns sinais após seu retorno para casa, como portas arranhadas, objetos destruídos, xixi fora do lugar e até mesmo reclamação de vizinhos por causa dos latidos. Isso dará informações valiosas sobre como o cão está se sentindo ao ficar sozinho. Fazer gravações do cão enquanto ele está na ausência do tutor é também uma estratégia importante para verificar o que está acontecendo.

É muito comum os tutores descreverem certas atitudes do cachorro como “pirraça”, mas é papel dos consultores comportamentais e veterinários auxiliá-los na compreensão de tais comportamentos. Para isso, é importante todos terem uma longa conversa para entender muito bem o histórico comportamental do cão, o perfil do tutor e como é a rotina da casa. Será que se trata de um problema que teve início na fase da matilha? É possível que esse animal tenha tomado algum tipo de susto enquanto estava sozinho? Já sofreu algum trauma? Trata-se de um cão que está ficando mais velho e, por isso, esteja ouvindo ou enxergando menos? Respondendo a essas perguntas e com os exames clínicos do cão em dia, é hora de pensar no tratamento.

O que fazer?

Assim como qualquer outro distúrbio comportamental, o tratamento será proposto de acordo com a gravidade do problema e deve ser realizado priorizando o bem-estar do animal. Para a SAS, podemos contar com três vias que compõem um bom tratamento: manejo ambiental, modificação comportamental e terapia medicamentosa.

Um ótimo começo é mudar a forma de se relacionar com o cão e incentivar sua independência, ensinando-o a ficar sozinho e fazendo disso uma experiência positiva para ele. Treinos de saídas e chegadas, um comando FICA muito bem afinado e a criação de um “cantinho especial”, onde o cão poderá passar um tempo sozinho se sentindo seguro, são atividades que contribuem para o sucesso desse tipo de treinamento. Além disso, é importante o tutor também controlar sua ansiedade e não fazer muita festa ao voltar para casa. Em contrapartida, as saídas serão valorizadas, com a oferta de brinquedos muito atrativos e petiscos, por exemplo.

O enriquecimento ambiental é outro ponto fundamental nesses casos. O objetivo principal é oferecer opções para que o cão se distraia enquanto estiver sozinho. Brinquedos dispensadores de comida e ossos para roer são ótimas ideias para enriquecer o ambiente. Além disso, podemos usar nossa criatividade para outros tipos de brinquedos: garrafas de plástico com furos que liberam petisco, caixas de papelão para que o cão possa destruir, brinquedos pendurados pela casa etc. É importante ressaltar que todo tipo de brinquedo deve ser testado previamente. O tutor deve oferecer o brinquedo ao o cão e observar sua interação, antes de deixá-lo sozinho, evitando assim possíveis acidentes.

Deixar a TV ou o rádio ligados e uma peça de roupa com o cheiro do tutor também podem amenizar a sensação de solidão. Já o confinamento em um cômodo específico ou em uma caixa de transporte (com o intuito de controlar comportamentos como destruição e necessidades fora do local) não é indicado para esses casos, pois pode aumentar ainda mais a frustração e a ansiedade do cão, possibilitando que ele sofra lesões e automutilações.  

Em muitos casos, aliar o treinamento comportamental ao uso de medicamentos adequados auxilia na redução dos sinais de ansiedade e, consequentemente, aumenta a velocidade e o índice de sucesso dos treinos. Todo e qualquer tipo de medicação deve ser prescrita por um médico veterinário que tenha acesso ao quadro clínico do paciente.

Medicação (BAMPI, 2014, p. 23-26)

De acordo com o US Food and Drug Administration (FDA) – órgão de controle de drogas e alimentos dos EUA –- a clomipramina é o único medicamento aprovado para tratamentos da SAS em cães. Ela age diretamente nas sinapses nervosas e inibe a recaptação de serotonina, ou seja, mantém os níveis de serotonina elevados, proporcionando uma sensação de bem-estar.

Um princípio ativo mais conhecido e que também é aprovado pelo FDA estadunidense é a fluoxetina, que também atua como inibidor de recaptação de serotonina. Além disso, alguns dados indicam que os chamados feromônios apaziguadores caninos, disponíveis em sprays, difusores de ambiente, lenços umedecidos e coleiras, pode ter efeito semelhante ao uso desses medicamentos.

Portanto…

Contando com a colaboração dos tutores e de todos os profissionais envolvidos, é possível tratar a SAS de forma tranquila e eficaz. Para isso, é importante adaptar os treinos de acordo com a rotina de cada um e também levar em conta a causa da síndrome, sempre pensando em possibilidades que contribuam para o bem-estar do animal.  

Preparação e revisão de texto: Juliana Sant’Ana, adestradora e membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

Referências:

  1. BAMPI, G. Síndrome de Ansiedade de Separação em Cães. 2014. 29f. Trabalho de Graduação (Graduação em Medicina Veterinária) - Faculdade de Veterinária, UFRS, Porto Alegre, 2014. Disponível em <UFRGS>. Acesso em: 14 set. 2017.

  2. SOARES, G.M; PEREIRA, J.T; PAIXÃO, R.L; Estudo exploratório da Síndrome de Ansiedade de Separação em cães de apartamento. Ciência Rural, v. 40, p. 548-553, 2010. Disponível em <SCIELO>. Acesso em: 14 set. 2017.

  3. STORENGEN, L. M. et al. A descriptive study of 215 dogs diagnosed with separationanxiety. Applied Animal Behaviour Science, v. 159, p. 82-89, 2014. Disponível em:  <SCIENCEDIRECT>. Acesso em 14 set. 2017.